folhetim pulp
"Dos escombros de nosso desespero construímos nosso caráter."

Ralph Waldo Emerson


Trecho do primeiro capítulo - Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos


À espera de porcos, Edgar Wilson suspira pela oitava vez nessa sexta-feira quente e abafada. Por seu olhar vago, perdido, parece que não se incomoda em esperar o tempo que for preciso, mas apesar da frieza permanente ele anseia a seu modo. Era o segundo atraso do carregamento em quatro dias e por isso precisaria comunicar ocorrido ao seu patrão.

Havia feito planos para sair mais cedo, ir ao bar do Cristóvão, fazer algumas apostas em Chacal, um cão enjeitado pelo demo, que já havia arrancado a cabeça de Gepeto que tinha o dobro de seu tamanho e encontrar Rosemery, sua noiva. Mas isso não era novidade, pois todas as sextas são iguais e de modo algum Edgar Wilson se importa com a rotina em que vive. Aqui no subúrbio, quente e abafado, esquecido e ignorado, nos fundos de um mercadinho cheirando a barata, não existe desconforto maior do que o carregamento de porcos atrasar e expectativa maior do que vê-los, todos, pendurados por ganchos no frigorífico.

Edgar Wilson sabia que sob influência da lua nova, Chacal fervia pelas entranhas e de suas patas saíam faíscas. Ele certamente lucraria o triplo da aposta, e talvez ganhasse o suficiente para pedir a mão de Rosemery em casamento, que exigia uma geladeira nova para selarem o compromisso definitivamente. O problema é duvidar da fidelidade de Rosemery, que nos últimos tempos estava sempre alegando precisar dormir na casa da patroa, porque a mesma exigia que a faxina fosse feita bem cedo, nas terças e quintas. Mas não pensar muito sobre o que quer que seja faz parte de sua personalidade. Sempre acreditou que a Providência Divina se encarrega do fardo por demais pesado E na providência divina, Edgar deposita toda sua fé. “Pra que se colocar ansioso se isso não acrescenta nem um côvado em sua altura, nem torna um fio de cabelo preto em branco?”, era o que dizia padre Guilhermino Anchieta .

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, Edgar Wilson não reclama da vida.
O distante ronco de um motor lhe faz apagar um cigarro sobre uma porção de formigas que reúnem-se ao redor de seu último escarro. Percebe uma coloração avermelhada e teme por algum tipo de mazela. Verifica as horas, calça suas botas de borracha e se coloca de pé. Vê a caminhonete se aproximar, dirige-se até o telefone atrás do balcão e liga para Gerson, seu ajudante, que alega estar sofrendo de uma crise renal.

"Mas você não deu um rim pra sua irmã?"

"Isso foi no ano passado."

"Ãhhh, sei. O carregamento atrasou de novo."

"É a segunda vez essa semana."

"Preciso informar ao patrão."

"Desculpe, Edgar mas esse rim me pegou de jeito."

"É....."

"Eu posso te mandar o Pedro."

"Ele sabe desossar alguma coisa?"

"Só um instante."

Gerson sentindo muitas dores e suando frio ajeita-se no sofá encontrando a posição mais adequada para gritar a pergunta. ”Pedro, você sabe desossar alguma coisa?
Pedro demora alguns instantes e aparece na sala enrolado numa toalha vermelha, segurando uma colher de pau.

"O que você tá fazendo?" pergunta Gerson.

"Um bolo."

"Você foi comprar farinha de trigo?"

"Não. Eu tô usando aquela do pote azul."

"Você esqueceu do que eu te disse, Pedro?"

"O quê?"

"Sobre a farinha do pote azul."

Pedro olha para a colher de pau que segura e lambe o resto do recheio que ameaça cair. Mastiga por uns instantes e logo em seguida suspira. É um recheio delicioso e parece se orgulhar de seu bom trabalho.

"E o que era?" pergunta, após engolir.

"Tá com bicho. Eu mandei você jogar fora."

Pedro coça a cabeça e responde

"Eu peneirei as minhocas."

Gerson não reage à resposta.

"Eu peneirei tudo, verdade mesmo."

Gerson volta-se para a tv que está ligada, Pedro permanece parado segurando a colher de pau e eles riem da gargalhada emitida num programa de culinária. Ele repara o fone na mão de seu irmão.

"Gerson, você me chamou?" diz apontando para o telefone.
"Ah.... você sabe desossar alguma coisa?"

Pedro pensa um pouco.

"Não sei. Não tenho certeza."

"O Edgar quer saber."

"Você quer dizer, separar as tripas, o fígado, o ..."

"A carne do osso...essas coisas."

Pedro pensa mais um pouco. Volta para cozinha sem dizer nada. Retorna em seguida.

"Lembra do cachorro da Matilda, o Tinho?"

Pedro parece um tanto perdido, mas de estalo responde com um aceno positivo da cabeça. A toalha em sua cintura cai no chão. “Essa cueca é minha”, diz Gerson. Pedro não responde e volta à cozinha.

"Edgar, lembra o Tinho, da Matilda?"

"Lembro."

"Foi o Pedro."

"Então avisa a ele que o carregamento já chegou."

"Tá certo."

"E o teu rim? Eu tô falando do bom, daquele que tá lá com a tua irmã."

"Acho que vai bem."

"Você não pensa em pegar de volta. Quer dizer, quando você deu pra ela, não estava precisando, ele não te fazia falta, mas agora é diferente."

"É, eu sei. Parece que ela tá com câncer."

"Então, ela não vai precisar dele por muito tempo."

"Acho que não. Escuta, eu deixei aquele vídeo do Chuck Norris na sua casa?"

"Braddock?"

"O resgate."

"Só estou com o Braddock II. O resgate, esse não tá não."

"Acho que perdi meu vídeo. É um desfalque e tanto na minha coleção."

Silêncio.

"Você vai deixar seu rim jovem e saudável ser comido pelo câncer da tua irmã?"

"Parece que ela vai começar a fazer aquele troço que deixa careca."

"Sei... então a radiação vai matar o teu rim."

"Você acha mesmo?"

"Acho que o teu rim já era."

***

Pedro permanece agachado nos fundos do mercadinho, acariciando o porco que espera para ser abatido, enquanto Edgar Wilson, debruçado na janela da caminhonete resolve algumas questões pendentes.

"Vou repetir pela décima vez: eu esperava por dois porcos." diz Edgar ao motorista da caminhonete.

"Mas esse porco vale por dois."

"Nada disso. Eu preciso de dois porcos. Esse foi o combinado. Meu patrão não vai gostar nada, nada disso."

"Nós perdemos um dos porcos vindo pra cá. Essa estrada é muito esburacada."

"Como assim perdeu um dos porcos? Um porco não é nenhuma miudeza pra se perder. Não posso me responsabilizar. Eu preciso de dois porcos."

"Eu te trouxe um porco bem grande. Sirva-se dele."

O homem arranca com a caminhonete, deixando Edgar Wilson com poeira nos olhos.

_____________________



_________

Projeto e concepção por Amanda Meirinho.

Para o corpo de texto, foi utilizada a fonte Georgia, criada em 1993 por Matthew Carter. Na parte extra textual, foram usadas as tipografias Dirty Ego, Broken 15, Nail Scratch e Nasty, todas disponíveis para download no site de seu projetista, o designer brasileiro Eduardo Recife.

A montagem foi projetada a partir da ilustração de L. Leslie Brooke, para o livro The Golden Goose Book, Frederick Warne & Co., Ltd.- 1905.

2008 - Ana Paula Maia
Todos os direitos reservados.



folhetim