folhetim pulp
"Dos escombros de nosso desespero construímos nosso caráter."

Ralph Waldo Emerson


Orelha do livro


Tão jovem quanto ousada, Ana Paula Maia já é presença decisiva em qualquer discussão que pretenda tratar do tema contemporâneo da volta do real ao cenário da literatura brasileira. Realismo excessivo, realismo cru, realismo trágico, seja qual for o enfoque que se dê à questão, na obra de Ana Paula encontraremos material absolutamente original, capaz de provocar uma reflexão crítica estimulante, mas sobretudo um apelo à leitura ininterrupta. Cada cena, cada capítulo parece grudar à pele, deixar marcas, cheiros de que não nos desvencilhamos nem mesmo depois de fechado o livro.

Neste volume estão reunidas duas novelas. A primeira, que dá nome ao livro, já foi apresentada pela autora como um “folhetim pulp”. Do folhetim traz um grude, um arrebatamento especial, e é pulp no sentido em que o cinema Tarantino ou Takeshi Kitano é pulp. O volume de sangue circulando é similar nível. Sob o calor sufocante de um subúrbio distante, onde apostar em rinhas de cachorros assassinos é o divertimento mais saudável de que os homens desfrutar e onde vida humana não vale absolutamente nada, circulam Gerson e Edgar Wilson carregando sonhos ingênuos enquanto estripam algum ser.

Na segunda narrativa, “O trabalho sujo dos outros”, Erasmo Wagner recolhe o lixo numa cidade onde “tudo se transforma em lixo” e a riqueza da sociedade pode ser medida pela sua produção de lixo. O irmão Alandelon quebra asfalto há seis anos e vai ficando surdo pelo som da britadeira que lhe garante o ralo café e o torresmo de cada dia. O terceiro, Edivardes, desentope latrinas, esgotos, canos e todos os lugares para onde escoa a imundice da cidade. Um estranho bode incorpora-se ao elenco. Um dia, homens imersos neste fétido universo percebem que, como disse também Marx, “na sociedade burguesa o trabalho vivo é apenas um meio de multiplicar o trabalho acumulado” e deixam de recolher o lixo. A “cidade torna-se maldita” e pessoas e ratos dividem o mesmo espaço a luz do dia. É então que o realismo doloroso da narrativa nos provoca uma súbita ternura por esses personagens, que como disse o mesmo pensador barbudo, “fazem a riqueza dos homens”.

Beatriz Resende



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Projeto e concepção por Amanda Meirinho.

Para o corpo de texto, foi utilizada a fonte Georgia, criada em 1993 por Matthew Carter. Na parte extra textual, foram usadas as tipografias Dirty Ego, Broken 15, Nail Scratch e Nasty, todas disponíveis para download no site de seu projetista, o designer brasileiro Eduardo Recife.

A montagem foi projetada a partir da ilustração de L. Leslie Brooke, para o livro The Golden Goose Book, Frederick Warne & Co., Ltd.- 1905.

2008 - Ana Paula Maia
Todos os direitos reservados.



folhetim